perdão, ressentimento e justiça

dicas e ideias

Publicado em maio 9th, 2014 | por phocus+

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por Ricardo Borges Lucas

O que se entende por perdão? Que processos mentais levam uma pessoa a perdoar outra, ou a pedir perdão? A perdoar a si mesmo? Que efeitos o ato de perdoar ou pedir perdão provoca nas pessoas? E o que dizer do perdão divino? De grupos, tribos, etnias e de nações que pedem ou recebem perdão? Pode-se perdoar tudo? Pode-se perdoar a violência, a barbárie, a mentira, a traição? Pode-se perdoar a indiferença, a negligência, o abandono, a ausência? Existem graus diferentes de perdão? Para a psicologia perdoar é a capacidade que os indivíduos possuem de se libertar da magoa, de abdicar do ressentimento e do desejo de vingança para com seu ofensor através da compaixão ou da benevolência.

A atitude e o pensamento moral de não perdoar parecem – psicologicamente abordando – alimentar afetos, julgamentos e comportamentos negativos, tanto consigo mesmo quanto para com a pessoa que ofendeu. Já a atitude e o pensamento moral de perdoar parecem alimentar afetos, julgamentos e comportamentos positivos, tanto consigo mesmo quanto para com o ofensor. Uma pessoa que não perdoa pode se tornar ressentida, amargurada, deletéria. Uma pessoa que consegue perdoar é considerada de coração nobre, superior e benevolente. Mas, nem sempre quem é ofendido e perdoa é estimulado pelos conhecidos a agir assim. Na maioria das vezes, lhes é dito para largar de ser bobo, burro, ingênuo, pois o outro ainda vai aprontar muitas.

Um sentimento de injustiça, de uma magoa que não se supera e parece não querer esquecer, uma vingança que não se realiza nunca… Tudo isso mobiliza ressentimentos eternos dessas pessoas incapazes de perdoar, tanto aos outros quanto a si mesmas. Pesquisas recentes indicam que pessoas que não conseguem perdoar estão mais sujeitas a crises de depressão e ansiedade. Teoricamente, para uma pessoa perdoar é necessário modificar os afetos negativos de ressentimentos em afetos positivos de compaixão e amor, os comportamentos de vingança em comportamentos de amizade e os julgamentos de rancor em julgamentos de cuidado e carinho pela outro que o ofendeu injustamente (Referência a Júlio Rique Neto, Cleonice Camino, Walberto Santos e Valdiney Gouveia em Aval. psicol. v.8, n.2, Porto Alegre, ago. 2009.).

No momento delicado que estamos atravessando em nosso país, com conflitos de toda ordem, o sentimento de justiça por equidade e justiça por igualdade estão profundamente correlacionados com nossa capacidade de perdoar sem deixar de ser o mais justo possível. Neste ponto, parece que nos falta uma educação e uma maturidade psicológica voltadas para o desenvolvimento do pensamento ético, da responsabilidade moral, da tolerância com as diferenças e aos valores da justiça e do perdão. O brasileiro sempre disse ser parte de um povo pacifico que vive de esperança. Mas, quando surgem no contexto social falsas promessas de igualdade é como ascender um pavio de pólvora que explode os ressentimentos. Igualdade não é uma promessa, nem um decreto. Igualdade é uma conquista diária na construção de uma educação dos valores e direitos humanos. Perdoar, talvez seja um dos valores humanos mais necessitados desses últimos tempos.

“Perdoar é humano, mas se vingar é divino.” Disse Maria Rita Kehl, citando frase de uma amiga, no Programa Café Filosófico que abordou o tema Identidades Sociais e Ressentimento Psicológico (youtube).

“Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” Oração do Pai Nosso.

Ricardo Borges Lucas (CRP: 9/687) é Psicólogo Clínico (PUC/GO), Psicoterapeuta, Membro da Associação Goiana Rorschach e Métodos Projetivos filiada a ALAR (Associação Latino Americana Rorscach) e ISR, especialista Lato Sensu em Teoria Psicanalítica pela Cogea -PUC/SP, vem trabalhando a dez anos com pacientes com Distúrbios de Sono.
ricardoluccas@hotmail.com

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